10 Novembro 2009

Um primor o texto do Juremir

A minissaia que virou São Paulo

O futuro nunca está garantido. O caso da minissaia da guria da Uniban mostrou que estamos sempre a um passo da pré-história. Somos bárbaros com um verniz de civilização. Vivemos no limite. Que os paulistas são atrasados e machistas, no entanto, já se sabia. Basta lembrar que adoram brincar de faroeste caipira e usam aquelas botas e chapéus ridículos. Mas agora eles passaram do aceitável e arranjaram lugar perpétuo em quadros de humor. Ultrapassaram facilmente o machismo gaudério. Um estudante da Uniban alegou que as pernas da menina o impediam de se concentrar na aula. É o velho argumento da provocação. O corpo feminino tiraria os homens do sério e os faria perder a cabeça. Uma boa solução seria impor o uso da burca na Uniban. Poderia ser inventada a burca paulista, com filtro para poluição.

A poluição maior, obviamente, é da cabeça de uma gurizada retrógrada e sem vergonha de expor o atraso mental. Outra solução seria mandar a gurizada da Uniban para um estágio no Rio de Janeiro, onde eles passariam seis meses só de calção e vendo milhões de garotas seminuas. O que eles fariam quando encontrassem uma mulher de biquíni na Visconde do Pirajá, em Ipanema, distante umas três quadras do mar? A Uniban agiu como os velhos diabolizadores da mulher: expulsou a serpente do campus. Teve de voltar atrás. Não teria sido mais justo mandar embora aqueles machistas que se comportaram como trogloditas ou talibãs? Aí doeria na conta da respeitável instituição. As meninas da Uniban deviam ter reagido cruelmente. Deviam ter ido às aulas de microssaia.

A guria ficou 40 minutos num ônibus antes de sacudir a Uniban com seus bumbum provocador. A massa do coletivo comportou-se adequadamente. Já a turma universitária perdeu a compostura. Sinal dos tempos. Nossas elites já não se dão o respeito. As mulheres, pelo jeito, vão ter de voltar a queimar sutiãs nas praças visto que os homens estão querendo queimar minissaias nas salas de aula. Os machões da Uniban alegam que a guria ainda levantou o vestido ao subir uma escada para afrontá-los. Bem pensado, era a única coisa que podia fazer. Era a única arma de que dispunha para enfrentar uma horda de selvagens em disparada moralista carregada de hipocrisia.

É incrível como uma calcinha ainda pode chocar o mundo. Em 2009, estudantes universitários ainda ficam embaixo da escada para se chocar com a visão “obscena” de um sexo sempre tão desejado. Bunda pode vender cerveja na televisão. Mas deve ser escondida nas universidades paulistas para evitar tumultos. É a crise dos 40. A crise dos 40 anos de 1968. Claro que os estudantes da Uniban nunca ouviram falar em maio de 68. Aposto, no entanto, que levam as namoradas para dormir em casa. Pelo jeito, no entanto, os guris da Uniban devem ser contra que suas irmãs levem os seus namoradores para dormir em casa. Afinal, homem da Uniban é homem. Mulher é outra coisa. Os guris da Uniban não poderiam olhar o ranking das universidades da Playboy. Tem mulher pelada. Que horror!


Postado por Juremir Machado da Silva - 10/11/2009

A questão da UNIBAN(BI)



Opinião do ultraconservador Alexandre Garcia – Sem comentários.

(Folha SP - LAURA CAPRIGLIONE)

“Geisy foi xingada nos corredores da universidade no último dia 22 por usar um microvestido rosa. O tumulto foi filmado e os vídeos acabaram na internet. A aluna, que está no primeiro ano do curso de turismo, parou de frequentar as aulas após a confusão e, neste fim de semana, foi expulsa.

O anúncio da expulsão foi publicado em jornais de São Paulo neste domingo (8), e a aluna afirmou ter sido comunicada pela imprensa. Na nota do fim de semana, a Uniban informou que a medida foi adotada após “flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade” por parte da aluna.”

“O reitor da Universidade Bandeirante – Uniban Brasil, de acordo com o artigo 17, inciso IX e XI, de seu Regimento Interno, revoga a decisão do Conselho Universitário (CONSU) proferida no último dia 6 sobre o episódio do dia 22 de outubro, em seu campus em São Bernardo do Campo. Com isso, o reitor dará melhor encaminhamento à decisão.”

Fernanda

Que coisa atrasada! Moramos num país tropical, onde a nudez é quase uma obrigação! Queiram que a menina fosse de ”burca” na faculdade? Pensam que estão no Afeganistão? Porque não a enterraram e apedrejaram-na? O pior é saber, que a maioria dos manifestantes era composta por jovens! Não entendi os gritos! Estavam com inveja das pernas da moça ou do vestido rosa dela? Eu, hein!

Professor Moacir

Os gestores da Uniban(bi) deram uma aula de mediocridade, incompetência, insensibilidade. Concordo com Joelmir Betting, que no Jornal da Band deu nota “zero” para a capacidade dos diretores da universidade em gestão de crise. Creio que a blogosfera teve um papel decisivo na evolução dos acontecimentos após a “expulsão” da jovem estudante. Ficou a impressão de que a universidade não sabe onde enfiar a cara depois que o seu preconceito e autoritarismo fascista foi devidamente desnudado. E mais: que tipo de clientela são os alunos dessa instituição privada? Que futuro eles podem proporcionar ao Brasil? Uma colega foi xingada, cuspida e manietada em nome do “decoro”, da decência e da ética e a Uniban(bi) transforma a vítima em réu? Ao menos se a jovem sofresse uma condenação estética, vá lá, até porque ninguém é obrigado a concordar com a roupa que se veste, mas o que houve foi uma condenação ética por parte dos alunos, e hipocritamente referendada pela universidade, que agora, de uma forma patética volta atrás.





08 Novembro 2009

Fifi e as galinhas - legítimas - e fim da série I

Fifi - Passo Fundo

07 Novembro 2009

Fifi Internacional

Vídeo original gravado em VHSC PAL G - Fita em péssimo estado - mofada - mais as transcodificações que foram necessárias = péssima qualidade. Mas para mim o valor sentimental é o que importa!

(Músicas: Albano & R.Power Felicita - Ricchi e Poveri - Mama Maria)

05 Novembro 2009

Fifi - Seis meses sem a tua companhia - Saudades.

26 Outubro 2009

Dante Milano


Música Surda

Como num louco mar, tudo naufraga.
A luz do mundo é como a de um farol
Na névoa. E a vida assim é coisa vaga.

O tempo se desfaz em cinza fria,
E da ampulheta milenar do sol
Escorre em poeira a luz de mais um dia.

Cego, surdo, mortal encantamento.
A luz do mundo é como a de um farol...
Oh, paisagem do imenso esquecimento.


Máscara

Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.

Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.

Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.


Ao tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?


A partida

Chego à amurada do cais,
Tomo um trago de tristeza.
Vem uma aura de beleza
Entontecer-me ainda mais.

Sinto um gosto de paixão
Dentro da boca amargosa.
Vem a morte deliciosa
Arrastar-me pela mão.

Vou seguindo sem olhar,
Vou andando sem rumor,
Ouvindo a vaga do mar
Bater na pedra da dor.

Vou andando sobre o mar,
Quem sabe onde irei parar?
Vou andando sem saber
Aonde me leva este amor.


Escultura

A forma da fêmea integrou-se no corpo do macho,
Ambos uma só pedra
Onde ressaltam, invisíveis, separando-os
As duas almas supérfluas.


Cenário

Tudo é só, a montanha é só, o mar é só,
A lua ainda é mais só.
Se encontrares alguém
Ele está só também.

Que fazes a estas horas nesta rua?
Que solidão é a tua
Que te faz procurar
O cenário maior,
O de uma solidão maior que a tua?


Paragem


Com os meus bois.
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.

E esta calma, esta canga, esta obediência.


Em forma de amor

Por que me apertas com tanta força?
Por que não tiras os olhos dos meus?

Teu abraço me esmaga,
Teu beijo me sufoca,
Teus dedos se cravam nos meus cabelos,
Tua voz rouca parece exprimir num rugido o que as palavras
[ não podem significar...

Por que me agarras?

Assim dois inimigos se abraçam para lutar.


Composição

Duas mulheres juntas
Formam desenhos dúbios

Se numa só há tantas,
As duas serão quantas?

Uma na outra transformo
E, misturando as formas,

No mesmo luar as banho,
Metamorfoses sonho.

Todas parecem uma
A quem a todas ama.

Lêdo Ivo

As Iluminações

Desabo em ti como um bando de pássaros.

E tudo é amor, é magia, é cabala.
Teu corpo é belo como a luz da terra
na divisão perfeita do equinócio.

Soma do céu gasto entre dois hangares,
és a altura de tudo e serpenteias
no fabuloso chão esponsálício.

Muda-se a noite em dia porque existes,
feminina e total entre os meus braços,
como dois mundos gêmeos num só astro.






O Caminho Branco

Vou por um caminho branco Adicionar imagem
Viajo sem levar nada.
Minhas mãos estão vazias.
Minha boca está calada.
Vou só com o meu silêncio
e a minha madrugada.
Não escuto, entre os barrancos,
a voz do galo estridente
que, na treva do terreiro,
anuncia as alvoradas.
Nem mesmo escuto a minha alma:
não sei se ela vai dormindo
ou me acompanha acordada,
se ela é vento ou se ela é cinza
ou nuvem rubra raiante
no dia que se levanta
como vela desdobrada
em nave que corta as vagas.
Não sei nem mesmo se é alma
ou apenas sal de lágrimas.
Vou por um caminho branco
que parece a Via Láctea.
Só sei que vou tão sozinho
que nem sequer me acompanho,
como se eu fosse um caminho
pisado por vulto estranho.
Não sei se é dia ou se é noite
o que surge à minha frente,
se é fantasma do passado
ou vivente do presente.
Não sei se é a torrente clara
da água que corre entre pedras
ou se um gavião me espreita
oculto no nevoeiro,
espantalho prometido
ao meu dia derradeiro.
Atravessando barrancos
e plantações de tomate
e ouvindo o canto escarlate
de airosos galos polacos,
vou por um caminho branco:
brancura de bruma e prata.
Entre tufos de carqueja
há constelações de orvalho
e um clarão de meio-dia
cega a minha madrugada.
Vou como vim, sem saber
a razão da travessia.
Nem sequer levo na boca
o gosto de água salgada
que relembra a minha infância
feita de mar e de mangue.
Nem sequer levo nos olhos
- nos meus olhos de menino -
a mancha rubra de sangue
deixada pelo assassino
que vi certa madrugada.
Vou por um caminho branco
e nada levo nem tenho:
nem ninho de passarinho
nem fogo santo de lenho.
Só vou levando o meu nada.
Foi tudo quanto juntei
para oferecer a Deus
nesta madrugada.

20 Outubro 2009

Eugênio de Andrade

“Passamos pelas coisas sem as ver,
Gastos, como animais envelhecidos:
Se alguém chama por nós não respondemos,
Se alguém nos pede amor não estremecemos,
Como frutos de sombra sem sabor
Vamos caindo no chão, apodrecidos.”

O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade nasceu no Fundão em 19 de Janeiro de 1923, e faleceu no Porto a 13 de Junho de 2005.

Eugénio de Andrade foi o pseudónimo de José Fontinhas Rato, fixou-se em Lisboa em 1932 com a mãe, que entretanto se separara do pai. Estudou no Liceu Passos Manuel e na Escola Técnica Machado de Castro, tendo escrito os seus primeiros poemas em 1936, o primeiro dos quais, intitulado "Narciso", publicou três anos mais tarde.

Em 1943 mudou-se para Coimbra, onde regressa depois de cumprido o serviço militar convivendo com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. Tornou-se funcionário público em 1947, exercendo durante 35 anos as funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde. Uma transferência de serviço levá-lo-ia a instalar-se no Porto em 1950, numa casa que só deixou mais de quatro décadas depois, quando se mudou para o edifício da Fundação Eugénio de Andrade, na Foz do Douro.

A sua consagração já acontecera dois anos antes, em 1948, com a publicação de "As mãos e os frutos", que mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio. Entre as dezenas de obras que publicou encontram-se, na poesia, "Os amantes sem dinheiro" (1950), "As palavras interditas" (1951), "Escrita da Terra" (1974), "Matéria Solar" (1980), "Rente ao dizer" (1992), "Ofício da paciência" (1994), "O sal da língua" (1995) e "Os lugares do lume" (1998).

Em prosa, publicou "Os afluentes do silêncio" (1968), "Rosto precário" (1979) e "À sombra da memória" (1993), além das histórias infantis "História da égua branca" (1977) e "Aquela nuvem e as outras" (1986).

Durante os anos que se seguem, o poeta fez diversas viagens, foi convidado para participar em vários eventos e travou amizades com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como Joel Serrão, Miguel Torga, Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Joaquim Namorado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Luís Cano, Ángel Crespo, Luís Cernuda, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Óscar Lopes, e muitos outros...

Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com "essa debilidade do coração que é a amizade".

Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). Em Setembro de 2003 a sua obra "Os sulcos da sede" foi distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube. Viveu em Lisboa de 1932 a 1943. Fixou-se no Porto, a partir de 1950, como funcionário dos Serviços Médico-Sociais. Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto, após uma doença neurológica prolongada.

A obra poética de Eugénio de Andrade foi considerada por José Saramago como uma poesia do corpo a que se chega mediante uma depuração contínua.

Fonte: Wikipédia e outros


As palavras

Orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
As águas estremecem.

Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas de luz e são a noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim,
Cruéis desfeitas
Nas suas conchas puras

*Miguel Torga


Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

*(pseudonimo de Adolfo Correia Rocha)

Sophia Andresen


Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Dante Milano


O homem e a sua paisagem

Toda paisagem tem um ar de sonho.
Vejo o tempo parado, inutilmente.
Tudo é menos real do que suponho.

Interrompi teu sonho, natureza.
Diante de um ser humano, de repente
Apareces tomada de surpresa.

No espaço que me cerca estou suspenso.
Em redor um olhar pasmado e mudo
E no ar a ameaça do silêncio denso.

Em todo sonho existe um extasiado
Olhar adormecido que vê tudo…
Senhor, eu sou o objeto contemplado

H. Dobal

Ruínas

Estas velhas paredes não confessam
à brisa sem memória os seus segredos.
A pedra construída sobre a pedra,
numa estranha argamassa reforçada
por suor de escravo e óleo de baleia,
como se alguém quisesse levantar,
contra o sereno da noite,
contra a ferrugem do mar,
uma alvenaria libertada
de tudo o que a morte corrompe.
Mas pouco permanece. Estas paredes
vão-se abatendo semi-destruídas
pelo puro movimento dos dias.

Bate na tarde um vento claro,
bate no peito uma lembrança
que estas paredes não confessam:
A vida. A mágoa sem remédio. O jogo do amor,
talvez mais difícil naquele tempo.



Transeunte

Transeunte numa cidade sem ruas,
é apenas um homem, apenas uma mulher.
A vida pesada cai sobre
os seus ombros cansados. Levados
de uma incerteza a outra incerteza,
de uma angústia a outra angústia,
no amargo sonho desta vida
pedindo ao verão o refrigério das sombras.



O poeta H. Dobal — ou, no registro civil, Hindemburgo Dobal Teixeira —
nasceu em Teresina, em 1927. Advogado, foi funcionário do Ministério da Fazenda. O poeta publicou um bom punhado de livros, mas os críticos consideram sua primeira obra, O Tempo Conseqüente, de 1966, um dos momentos mais marcantes de seu trabalho.

Sobre esse livro, Manuel Bandeira escreveu: “Só mesmo um poeta ecumênico como Dobal podia fixar sua província com expressão tão exata, a um tempo tão fresca e tão seca, despojada de quaisquer sentimentalidade, mas rica do sentimento profundo visceral da terra”.

De fato, o que chama a atenção na poesia de H. Dobal é essa fina emoção lírica construída, paradoxalmente, com um discurso árido, firme, substantivo. Mas não se pense que o termo árido, aí, tem a ver apenas com o agreste da região natal do poeta. Existir é árido, em qualquer quadrante, em qualquer estação. É o poeta quem avisa, de olho na paisagem de Brasília:

Dói o verão:
esta pele seca
estirada
sobre os ministérios vazios.

A poesia de H. Dobal é como um grande pássaro que estende as asas sobre o campo e a cidade. Vai das cabeças d'água do rio Surubim e do chão das vacas e ovelhas até o mármore morto dos viadutos. Uma poesia que se debruça sobre o esporte amargo de viver e sabe que o destino sempre leva vantagem. E a cinza das roças é a mesma que ameaça os monumentos.

Estranho — e injusto — é que um poeta como H. Dobal tenha uma obra praticamente desconhecida. Não há livros do poeta no mercado. Descobri que a Livraria Corisco, de Teresina, publicou em 1997 uma poesia completa de Dobal. Mas nem a própria editora tem mais essa obra. Ainda há, parece, uma edição de O Tempo Conseqüente, também da Corisco. Só que a edição não é distribuída nacionalmente. Mandei um e-mail para a editora, na tentativa de obter informações mais precisas. Não obtive resposta.

Quem me chamou a atenção para o trabalho de H. Dobal foi o poeta Donizete Galvão. Depois que Galvão me deu a dica, li na internet alguns poemas de Dobal e fiquei impressionado. Em seguida, observei que Manuel Bandeira, em 1964, já o havia incluído em sua Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos. Bandeira foi também o autor do prefácio de O Tempo Conseqüente.

Carlos Machado

A Morte

A morte aparece
sem fazer ruído.

Senta-se num canto
fica indiferente
com seu ar de calma
absoluta.
Mira longamente
o quarto o retrato
a cama os remédios
postos entre os livros
sobre a mesa escura.

Depois se levanta
sem nenhuma pressa
sem impaciência
retorna ao seu mundo
a morte, de gestos
claros e serenos.

Saramar Mendes


Amores vãos

Bebo o meu vinho entre sombras
brindando à cidade
e seus argênteos fantasmas.
Não renego a agonia das noites
dentro dos meus olhos baços,
mas tranco a alma na gaveta de baixo
e assisto a passagem espectral da madrugada
barganhando com outros desesperados
a taça, o frio e os açoites do vento ou da dor.
Escapo da ausência das flores admirando néons
escondida num canto de alguma rua.
Esqueço meu nome antes mesmo da morte,
à espera de um amanhecer que nunca acontece.
“Lá fora tudo arde”.
Aqui, zumbem vozes esquecidas
curvadas até a mudez sobre as íntimas feridas
de amores vãos.


Blogs:
http://abrindojanelas.blogspot.com/
http://flanarfalares.blogspot.com/
http://eufeminismos.blogspot.com/

Ada Negri


Multidão

Uma folha tomba do plátano,
um frêmito sacode o cimo do cipreste,
És tu que me chamas.

Olhos invisíveis sulcam a sombra,
penetram-me como à parede os pregos,
És tu que me fitas.

Mãos invisíveis nos ombros me tocam,
para as águas dormentes do lago me atraem,
És tu que me queres.

De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros
a loucura sai para o cérebro,
És tu que me penetras.

Não mais os pés pousam na terra,
não mais pesa o corpo nos ares,
transporta-o a vertigem obscura
És tu que me atravessas, tu.


Aquele que passa

O desconhecido que passa
e te acha ainda digna de uma fugidia palavra de desejo,
Talvez porque na sombra da noite tão doce de Maio
Ainda resplendem teus olhos,
ainda tem vinte anos a ligeira figura deslizante,
Não sabe que foste amada, por aquele que amaste amada,
em plena e soberba delícia de amor,
E em ti não há membro nem ponta de carne ou átomo de alma
que não tenha uma marca de amor.

Que tu viveste apenas para amar aquele que te amava,
E nem que quisesses
podias arrancar de ti essa veste que o amor teceu.
Ele, ignaro,
em ti já não bela, em ti já não jovem,
saúda a graça do deus:
Respira, passando,
em ti já não bela, em ti já não jovem,
o aroma precioso do deus:

Só porque o levas contigo,
doce relíquia à sombra de um sacrário.


17 Outubro 2009

Alphonsus de Guimarães


Soneto

Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.

Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantado vai o próprio inferno.

Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...

Cada um de nós é bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...



Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

16 Outubro 2009

Cruz e Souza

Lésbia

Cróton selvagem, tinhorão lascivo,
Planta mortal, carnívora, sangrenta,
Da tua carne báquica rebenta
A vermelha explosão de um sangue vivo.

Nesse lábio mordente e convulsivo,
Rir, ri risadas de expressão violenta
O Amor, trágico e triste, e passa, lenta,
A morte, o espasmo gélido, aflitivo...

Lésbia nervosa, fascinante e doente,
Cruel e demoníaca serpente
Das flamejantes atrações do gozo.

Dos teus seios acídulos, amargos,
Fluem capros aromas e os tetargos,
Os ópios de um luar tuberculoso...

Dilacerações

Ó carnes que eu amei sangrentamente,
ó volúpias letais e dolorosas,
essências de heliotropos e de rosas
de essência morna, tropical, dolente...

Carnes, virgens e tépidas do Oriente
do Sonho e das Estrelas fabulosas,
carnes acerbas e maravilhosas,
tentadoras do sol intensamente...

Passai, dilaceradas pelos zelos,
através dos profundos pesadelos
que me apunhalam de mortais horrores...

Passai, passai, desfeitas em tormentos,
em lágrimas, em prantos, em lamentos
em ais, em luto, em convulsões, em dores...



João da Cruz e Sousa nasceu a 24 de novembro de 1861 em Nossa Senhora do Desterro, capital da Província de Santa Catarina, atualmente, Florianópolis. O nome João da Cruz é uma alusão ao Santo homenageado no dia de seu nascimento, San Juan de la Cruz. Filho dos escravos alforriados Guilherme, pedreiro; e de Eva Carolina da Conceição, cozinheira e lavadeira, João da Cruz foi criado pelo Coronel Guilherme Xavier de Sousa (que viria tornar-se Marechal) e sua esposa Clarinda Fagundes de Sousa, que não tiveram filhos. Assim, acabou por herdar o nome Sousa e obteve uma educação proporcional a dos brancos abastados de seu tempo. Com apenas 9 anos de idade já escrevia e recitava seus poemas para os familiares. Com o falecimento de seu protetor em 1870, as condições de vida tornaram-se menos confortáveis para o jovem João da Cruz.

Em 1871, entrou no Ateneu Provincial Catarinense. A partir de 1877, lecionava aulas particulares por necessidade financeira e impressionava seus companheiros de estudo pela capacidade intelectual. Conhecedor profundo de francês, chegou a ser citado numa carta do naturalista alemão Fritz Muller. Nesta carta dirigida ao próprio irmão em 1876, o naturalista citava João da Cruz como um exemplo contrário das teorias de inferioridade intelectual dos negros.

No ano de 1877, suas obras poéticas passaram a ser publicadas em jornais de Santa Catarina. Ao lado dos amigos Virgílio Várzea e Santos Lostada, João da Cruz fundou um jornal literário intitulado "O Colombo", em 1881. No ano seguinte fundo a "Folha Popular". Nesta mesma época, partiu em excursão pelo Brasil junto a uma companhia teatral e declamava seus poemas nos intervalos das apresentações. Também se engajou na luta social e passou a liderar conferências abolicionistas. Em 1883, foi nomeado promotor da cidade de Laguna. Mas não chegou a assumir o cargo devido ao furor preconceituoso de chefes políticos da região.

Em 1885 publica seu primeiro livro de co-autoria de Virgílio Várzea, intitulado Tropos e Fantasias. Até 1888 atuou em jornais, revistas e no centro da Imigração da Província de Santa Catarina. Neste mesmo ano, viajou para o Rio de Janeiro a convite de Oscar Rosas.

Em 1891 transferiu-se definitivamente para a então capital da República, Rio de Janeiro. A partir daí entrou em contato com novos movimentos literários vindos da França. Neste caso, João da Cruz e Sousa identificou-se especialmente com o chamado Simbolismo. O negro sulista que se enveredava pelos caminhos do Simbolismo, sofria duras críticas do meio intelectual de sua época; já que nesse momento, o Parnasianismo era a referência literária emergente.

Em novembro de 1893 casou-se com Gavita Rosa Gonçalves, também descendente de escravos africanos. Deste matrimônio nasceram quatro filhos, Raul, Guilherme, Reinaldo e João. Mas todos faleceram de tuberculose pulmonar. Sua esposa, ainda sofreu de distúrbios mentais que chegaram a refletir até mesmo nos escritos do poeta.

Ainda em 1893 publicou dois livros: Missal (influenciado pela prosa de Baudelaire) e Broquéis; obras que marcaram o lançamento do movimento simbolista brasileiro. Em 1897, concluiu um livro de prosa poética denominado Evocações. Quando preparava-se para publicá-lo, viu-se abatido pela tuberculose e partiu para Minas Gerais em busca de tratamento. Faleceu em 19 de março de 1898 aos 36 anos de idade. Seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro num vagão para transporte de gado. O amigo José do Patrocínio pagou as despesas com o funeral e o enterro no cemitério São Francisco Xavier. No ano de sua morte ainda foi publicado Evocações. Em 1900, Faróis; e em 1905, o volume de Últimos Sonetos.

O negro que contrariou o preconceito racial e se pôs a liderança do Simbolismo brasileiro, é autor de uma obra que traz versos como: "Anda em mim, soturnamente / Uma tristeza ociosa / Sem objetivo, latente / Vaga, indecisa, medrosa" (Tristeza Do Infinito - Últimos Sonetos). Além de: "De dentro da senzala escura e lamacenta / Aonde o infeliz / De lágrimas em fel, de ódio se alimenta / Tornando meretriz" (Da Senzala – O Livro Derradeiro). Percebe-se num primeiro momento o sofrimento de uma alma que ecoou diretamente em sua obra. Mas posteriormente, a consciência social e humanista de um cidadão. Cruz e Sousa, o Dante Negro ou Cisne Negro, foi um poeta Simbolista que ainda não obteve o reconhecimento literário devido, mas agrega em sua obra a essência única de um autor que cativa e comove por sua autenticidade.

"Que importa que morra o poeta?
Importa que não morra o poema!"

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...


Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
alvuras castas, virginais alvuras,
latescências das raras latescências.

As fascinates, mórbidas dormências
dos teus abraços de letais flexuras,
produzem sensações de agres torturas,
dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadores serpes
que prendem, tentanizam como os herpes
dos delírios na trêmula coorte ...
Pompa de carnes tépidas e flóreas,
braços de estranhas correções marmóreas,
aberto para o Amor e para a Morte!

Lêdo Ivo - Biografia


Quinto ocupante da Cadeira nº 10, eleito em 13 de novembro 1986, na sucessão de Orígenes Lessa e recebido em 7 de abril de 1987 pelo acadêmico Dom Marcos Barbosa. Recebeu os acadêmicos Geraldo França de Lima, Nélida Piñon e Sábato Magaldi.

Lêdo Ivo nasceu no dia 18 de fevereiro de 1924, em Maceió (AL), filho de Floriano Ivo e Eurídice Plácido de Araújo Ivo. Casado com Maria Lêda Sarmento de Medeiros Ivo (1923-2004), tem o casal três filhos: Patrícia, Maria da Graça e Gonçalo.

Fez a sua formação primária e secundária em sua cidade natal. Em 1940, transferiu-se para o Recife, onde passou a colaborar na imprensa local e a conviver com um grupo literário de que fazia parte Willy Lewin, o qual haveria de exercer grande influência em sua formação cultural. Em 1941, participou do I Congresso de Poesia do Recife. Em 1943 transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde se matriculou na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil. Passou a colaborar em suplementos literários e a trabalhar na imprensa carioca, como jornalista profissional.

Em 1944, estreou na literatura com As Imaginações, poesia, e no ano seguinte publicou Ode e Elegia, distinguido com o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras. Nos anos subseqüentes, sua obra literária avoluma-se com a publicação de obras de poesia, romance, conto, crônica e ensaio.

Em 1947, seu romance de estréia As Alianças mereceu o Prêmio de Romance da Fundação Graça Aranha. Em 1949, pronunciou, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, a conferência “A geração de 1945”. Nesse ano, formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, mas nunca advogou, preferindo continuar exercendo o jornalismo.

No início de 1953, foi morar em Paris. Visitou vários países da Europa e, em fins de 1954, retornou ao Brasil, reiniciando suas atividades literárias e jornalísticas.

Em 1963, a convite do governo norte-americano, realizou uma viagem de dois meses (novembro e dezembro) pelos Estados Unidos, pronunciando palestras em universidades e conhecendo escritores e artistas.

Ao seu livro de crônicas A Cidade e os Dias (1957) foi atribuído o Prêmio Carlos de Laet, da Academia Brasileira de Letras.

Como memorialista, publicou Confissões de um Poeta (1979), que mereceu o Prêmio de Memória da Fundação Cultural do Distrito Federal, e O Aluno Relapso (1991).

Seu romance Ninho de Cobras foi traduzido para o inglês, sob o título Snakes’ Nest, e em dinamarquês, sob o título Slangeboet. No México, saíram várias coletâneas de poemas seus, entre as quais La Imaginaria Ventana Abierta, Oda al Crepúsculo, Las Pistas, Las Islas Inacabadas, La Tierra Allende, Mía Patria Húmeda e Réquiem. Em Lima, foi editada uma antologia, Poemas; na Espanha sairam La Moneda Perdida e La Aldea de Sal; nos Estados Unidos, Landsend, antologia poética; na Holanda, a seleção de poemas Vleermuizen em blauw Krabben (Morcegos e goiamuns).

No Chile, saiu a antologia Los Murciélagos. Na Venezuela, foi publicada a antologia El Sol de los Amantes.

Na Itália foram publicados Illuminazioni e Réquiem.

Em 1973, foi conferido a Finisterra o Prêmio Luísa Cláudio de Sousa (poesia) do PEN Clube do Brasil, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal. O seu romance Ninho de Cobras foi distinguido com o Prêmio Nacional Walmap de 1973. Em 1974, Finisterra recebeu o Prêmio Casimiro de Abreu, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. Em 1982, foi distinguido com o Prêmio Mário de Andrade, conferido pela Academia Brasiliense de Letras ao conjunto de suas obras. O seu livro de ensaios A Ética da Aventura recebeu, em 1983, o Prêmio Nacional de Ensaio do Instituto Nacional do Livro. Em 1986, recebeu o Prêmio Homenagem à Cultura, da Nestlé, pela sua obra poética. Eleito “Intelectual do Ano de 1990”, recebeu o Troféu Juca Pato do seu antecessor nessa láurea, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Ao seu livro de poemas Curral de Peixe o Clube de Poesia de São Paulo atribuiu o Prêmio Cassiano Ricardo – 1996; ao livro O Rumor da Noite foi conferido o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 2001. Em 2004, recebeu, pelo conjunto de obra, o Prêmio Golfinho de Ouro, conferido pelo Governo do estado do Rio de Janeiro. Foi vencedor do Prêmio de Poesía del Mundo Latino Victor Sandoval, México, 2008 e recebeu o Prêmio Casa das Américas pelo livro Réquiem em 2009.

Ao longo de sua vida literária, Lêdo Ivo tem sido convidado numerosas vezes para representar o Brasil em congressos culturais e participar de encontros internacionais de poesia.

É sócio efetivo da Academia Alagoana de Letras, sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, sócio efetivo da Academia Municipalista de Letras do Brasil, sócio efetivo da Academia Brasileira de Letras do Brasil, sócio honorário da Academia Petropolitana de Letras; sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.

Condecorações: Ordem do Mérito dos Palmares, no grau de Grã-Cruz; Ordem do Mérito Militar, no grau de Oficial; Ordem de Rio Branco, no grau de Comendador; Medalha Manuel Bandeira; Cidadão honorário de Penedo, Alagoas. É Grande Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro e Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Alagoas.

Fonte: Academia Brasileira de Letras



A Passagem

"Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.
Para passar,exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.
Mas caso me proíbam de passar
por seu eu diferente ou indesejado
mesmo assim eu passarei.
Inventarei a porta e o caminho
e passarei sozinho".

A Queimada

Lêdo Ivo

"Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita".

Charles Baudelaire


Recolhimento

Sê sábia, ó minha dor, e queda-te mais quieta.
Reclamavas a tarde; eis que ela vem descendo:
Sobre a cidade um véu de sombras se projeta,
A alguns trazendo a angústia, a paz a outros trazendo.

Enquanto dos mortais a multidão abjeta,
Sob o flagelo do prazer, algoz horrendo,
Remorsos colhe à festa e sôfrega se inquieta,
Dá-me, ó dor, tua mão; vem por aqui, correndo

Deles. Vem ver curvarem-se os anos passados
Nas varandas do céu, em trajes antiquados;
Surgir das águas a saudade sorridente;

O sol que numa arcada agoniza e se aninha,
E, qual longo sudário a arrastar-se no Oriente,
Ouve, querida, a doce noite que caminha.



Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L'homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l'observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d'enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
- Et d'autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l'expansion des choses infinies,
Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens,
Qui chantent les transports de l'esprit et des sens.

(Les Fleurs du mal. Paris: Poulet-Malassis et de Broise, 1857)

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


"A origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica para a despersonalização e para a simulação."


Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

(15-1-1928 )

15 Outubro 2009

Chantal Rayes entrampada en Sao Paulo.

Domingo 11 de octubre de 2009 por Thierry Deronne

Fue por la más pura de las casualidades que con tan solo 24 horas de diferencia le Monde y Libération redactaron prácticamente el mismo artículo bajo un ángulo que no era tan obvio a priori. Pues para hablarnos de la vuelta de Presidente Zelaya a Honduras, Jean-Pierre Langellier (Le Monde, 2 de octubre) seguido por Chantal Rayes (Liberation, 3 de octubre) eligen ambos… la campaña de la élite brasileña contra el Presidente Lula.

Rayes y Langellier cultivan un sentido agudo del pluralismo. Sus fuentes son los grandes medios de comunicación brasileños en manos de grandes grupos económicos y esa élite intelectual que nunca perdonarán a Lula su tufo de alquitrán de ex-sindicalista de la metalurgia. Ayer su crimen era ser “financiado por las FARC, Fidel Castro, Hugo Chavez”. Hoy, el de salir de la órbita militar norteamericana al comprar aviones Rafale a Francia. O de apoyar más allá de toda retórica la vuelta de la democracia a Honduras. Jammal Makhoul, de la Escuela de Ciencias Sociales de la “Pontificia” (Sao Paulo) analizó los 204 números de la revista “Veja” de 2003 a 2006, concluyendo que esta llevó a cabo una verdadera estrategia de desestabilización. Los triunfos electorales y la fuerte popularidad de Lula da Silva comprueban en cambio la capacidad que tiene un pueblo para resistir a los golpes mediáticos. Como en Honduras.

En Brasil estos “medios de comunicación” criminalizan los movimientos sociales como el de los “trabajadores rurales sin tierra” y crean cada día un clima propicio para la represión. Hacer creer que la opinión pública brasileña se identifica con las campañas de ultra-derecha de “Veja” ya es sorprendente por parte de “corresponsales locales”. ¿Chantal Rayes no habrá visto nada, pues, de las movilizaciones de los principales movimientos sociales y sindicatos del país (MST, CUT) en Sao Paulo en apoyo a la vuelta de Zelaya? ¿Ignorará que la Presidente de la asociación de los Brasileños en Honduras denunció las amenazas diarias sufridas desde que los diplomáticos de su país ayudan al Presidente Zelaya? La corresponsal de Liberación, eso si, pasó con total éxito la prueba de admisión en el “Partido de la Prensa y del Dinero”. Desde luego quiere convencernos que fue… Lula quien cometió el golpe en Honduras: “Los partidarios de Lula tomaron el control de la embajada. Un periodista de la Folha de São Paulo tuvo que someterse a un control de pasaporte efectuado por un militante encapuchado en la puerta de la embajada de su propio país”.

¡ Qué insolencia desde luego por parte del equipo que protege a Zelaya, la de atreverse a chequear los papeles de un periodista en la puerta de una embajada con los teléfonos pinchados, cercada por la policía y el ejército, sitiada día y noche por snipers, espiada desde miradores, y contra la cual se usaron sistemas sonoros y químicos desde el primer día ! ¿Si Rayes se siente indignada por el “encapuchado” que se atrevió a chequear el pasaporte de un periodista, se supone que va a protestar con mayor fuerza contra el golpe mediático que desde hace tres meses silencia las centenares de detenciones, asesinatos, torturas y desapariciones, o contra el cierre por el golpistas, el 28 de septiembre, de los dos últimos medios de comunicación que no apoyaban sus exacciones - Radio Globo y el Canal 36 de televisión? ¿O contra los múltiples obstáculos puestos a la labor de los periodistas de Telesur? Rayes no dice una sola palabra al respecto.

Atrincherada detrás de un muy condecorado miembro de la élite intelectual brasileña, José Augusto Guilhon Albuquerque, Chantal Rayes se siente más inspirada. “El problema no consiste en albergar a Zelaya sino en permitirle hacer de nuestra embajada la sede de un Gobierno rebelde (sic) y eso, en el momento en que la tensión comenzaba a bajar (resic)”. ¿“… a bajar”? Le Monde dice lo mismo : “En Honduras, la vuelta clandestina del Presidente caído atiza las tensiones”. ¿“Será que nos quieren decir , pregunta Maurice Lemoine, Redactor jefe del Mundo Diplomático que las “tensiones” se habían reducido, después del golpe y de la expulsión del Presidente Manuel Zelaya, el pasado 28 de junio? Desde aquel día, mientras el Frente nacional de resistencia ha estado llevando a cabo poderosas movilizaciones populares, nunca se dejó de reprimir a la población, a sabiendas de todos - pero sin conmover demasiado los medios de comunicación. (.). Desactivados al final de los años ochenta, los escuadrones de la muerte difundieron una lista de ciento veinte sindicalistas para desaparecer. ”

Pero Chantal Rayes no ha terminado aun su demostración a base de citaciones : “Con esta línea, Brasilia se descalificó como mediador, destacan los “observadores. ” (sic) “Lula creyó reforzar la posición de Brasil en el escenario internacional pero ocurrió todo lo contrario, añade el politólogo Jorge Zaverucha. Cayo en el juego de Hugo Chávez. ”

Por fin, soltaron el nombre. No lo olvidemos : la sección francesa del Partido de la Prensa y del Dinero aceptó desde un principio los argumentos de los golpistas: “es la culpa de Chavez”. ¿Al fin y al cabo no logró la junta chilena salvar a Chile de las garras del Komintern? Chantal Rayes repite dócilmente la canción golpista: “El Presidente venezolano había logrado, a golpes de petrodólares, convertir a Zelaya, un terrateniente derechista, en partidario de su “revolución bolivariana”.

¿ Desconoce” Rayes el hecho que Manuel Zelaya al igual que otros mandatarios centroamericanos y del Caribe buscó primero la ayuda ahí donde lo podía : en el FMI, o en los mismos Estados Unidos ? ¿Desconoce la "periodista" el que junto con Haití y Nicaragua, Honduras es uno de los países más pobres de la región ? ¿Y que al contrario de las “ayudas” vinculadas a paquetes neoliberales que siempre afectan a los pobres, los programas de coopración en sectores tales como la agricultura, energía, salud o educación ofrecidos por Venezuela se basan en el principio de la solidaridad latinoamericana, sin contrapartidas políticas ? Bill Clinton acaba de saludar en tal sentido la ayuda de Venezuela y de Cuba al pueblo haitiano.

Seguramente, para Chantal Rayes, la realidad de América Latina no puede moverse sino bajo el efecto de causas externas. Al reducir las reformas emprendidas por Zelaya para sacar paulatinamente a su país de la miseria, a una “conversión por los petrodólares de Chavez” ella recicla la “teoría de la conspiración” de las élites conservadoras. Pero el pueblo de Honduras, ayer invisible, comenzó, como en otras partes de
América Latina, a levantar la cabeza. La señora Sandra Tercero, del sector El Pedregal al sur de
Tegucigalpa, una de las quince barriadas visitadas por los equipos de reporteros internacionales el 8 de octubre, destacó, que “al presidente Manuel Zelaya, no lo sacaron por la cuarta urna, lo sacaron porque con las nuevas propuestas del aumento del salario mínimo de 3.200 lempiras ( moneda local) a 5500 lempiras, esto equivalente a unos 300$, eso afecto directamente al sector empresarial. Eso es lo que les molesta a los golpistas las mejoras sociales a los sectores más deprimidos de Honduras. Tercero menciona “los bonos a las mujeres, a los de la tercera edad, los bonos escolares, los bonos a las madres solteras, la matricula escolar, la atención en el sector salud, en el sector agrícola (..), en fin todos estos proyectos sociales, que cada día beneficia más a los ciudadanos hondureños.”

Si Rayes escuchará a la gente en lugar de la élite, entendería mejor la naturaleza de la contraofensiva que un empresariado apoyado por la School of Americas, ha reactivado en Honduras. Ya que este despertar colectivo, del cual los Morales, Chavez o Correa son la espuma, es peligrosamente contagioso para millones de latinoamericanos pobres.

Rechazo a la investigación social. Desprecio por el imperativo categórico de la movilización de los demócratas en contra de la vuelta de las torturas y de las desapariciones en América Latina. Aunque su artículo sea adornado por una foto de Reuters en la cual el enano Lula parece caer en los brazos del gigante Zelaya, ni siquiera se concederá a Chantal Rayes el don del análisis político.

Pues afirmar que Chávez forzó la mano de Lula para que éste ayude al Presidente Zelaya, o que Lula tenga que pasar por Chavez para planificar su política internacional, tan solo expresa una sólida ignorancia de las relaciones de fuerza actuales y de la estrategia a largo plazo de la primera potencia latinoamericana.

12 Outubro 2009

Fim de noite...


Vagabundagem

Rimbaud

Lá ia eu com as mãos em meus bolsos furados;
O paletó também se tornara irreal;
E sob aquele céu, Musa! eu era teu vassalo;
E imaginava amores nunca imaginados!

Nas calças um buraco e eu só tinha aquelas.
- Pequeno Polegar das rimas, sonhador,
Instalei meu albergue na Ursa Maior.
- Lá no céu o frufru de seda das estrelas…

Eu as ouvia, sentado à beira das estradas,
nas noites boas de setembro, quando o orvalho
revigorava-me a fronte como um vinho;

E em meio às sombras fantásticas, então,
dedilhava, como se fossem lira, os elásticos
de meus sapatos, o pé junto do coração!

Olavo Bilac


Satânia

Sobe… cinge-lhe a perna longamente;
Sobe…- e que volta sensual descreve
Para abranger todo o quadril!- prossegue,
Lambe-lhe o ventre, abraça-lhe a cintura,
Morde-lhe os bicos túmidos dos seios,
Corre-lhe a espádua, espia-lhe o recôncavo
Da axila, acende-lhe o coral da boca,
E antes de se ir perder na escura noite,
Na densa noite dos cabelos negros,
Pára confusa, a palpitar, diante
Da luz mais bela dos seus grandes olhos.
E aos mornos beijos, às carícias ternas,
Da luz, cerrando levemente os cílios,
Satânia os lábios úmidos encurva,
E da boca na púrpura sangrenta
Abre um curto sorriso de volúpia…



O Tempo

Sou o Tempo que passa, que passa,
Sem princípio, sem fim, sem medida!
Vou levando a Ventura e a Desgraça,
Vou levando as vaidades da Vida!

A correr, de segundo em segundo,
Vou formando os minutos que correm . . .
Formo as horas que passam no mundo,
Formo os anos que nascem e morrem.

Ninguém pode evitar os meus danos . . .
Vou correndo sereno e constante:
Desse modo, de cem em cem anos
Formo um século, e passo adiante.

Trabalhai, porque a vida é pequena,
E não há para o Tempo demoras!
Não gasteis os minutos sem pena!
Não façais pouco caso das horas!

Juarez Leitão


Promessas

A manhã
em verdes ventos de palmas
balança.
Devagar
meu olhar se molha
de morna cobiça.

Mergulhas.
Vasculhas as águas
impresumível.
Corcoveias sibilina e fugaz,
o quadril opalino
brilha num vôo trêmulo
e submerge.

De longe
te como, Castanha,
te mastigo:
minha casa de palha está em chamas.

O dragão tatuado não sabe
de sua missão
nem o azul da piscina
conhece matizes.

O azul e o dragão são adereços
cada qual com seu preço e tarefa.

Bebo.
O limo do desdém não me governa:
estou construindo promessas.

Ana Luísa Amaral


Pequenos mosaicos

É agora – na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.

O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. É de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.

Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.

E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.

Cecília Meireles


Serenata

" ... Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo ... "

Sylvia Plath


Palavras

Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

Ferreira Gullar


Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Elisa Lucinda


Adoro uma bobeira
uma palhaçada
uma palavra à margem
uma idéia engraçada
uma sacanagem
adoro a surpresa da piada
uma indecência boa
adoro ficar à toa fazendo trocadilhos obscenos
com sexo.
Adoro o que não tem nexo
e por isso faz rir
adoro a bobagem pueril
a coisa que não tem rumo
que de repente me escolhe
e me olha.
Preciso da besteira para obter a glória!